Segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), o mundo desperdiça cerca de 1 bilhão de toneladas de alimentos ao ano. No Brasil, cerca de 27 milhões de toneladas de alimentos são desperdiçadas anualmente. Em um cenário marcado pelo aumento do custo dos alimentos e pela preocupação crescente com a sustentabilidade, o aproveitamento integral dos alimentos surge como uma alternativa capaz de beneficiar a saúde, o orçamento familiar e o meio ambiente. A prática consiste em utilizar os alimentos em sua totalidade, incluindo partes que normalmente são descartadas, como cascas, talos, folhas, sementes e miolos.
A temática é trabalhada pelo curso de Nutrição da UniEVANGÉLICA em diversas ações de extensão desenvolvidas junto à comunidade. Um dos exemplos foi o 3º UniFamília, evento em que acadêmicos e professores promoveram oficinas voltadas à alimentação saudável e ao combate ao desperdício.
Responsável pelas atividades extensionistas do curso e pelas oficinas de aproveitamento de alimentos, a professora e nutricionista Karina Martins explica que o aproveitamento integral dos alimentos vai além da economia doméstica. “Vivemos em um paradoxo global, onde milhões de pessoas enfrentam a insegurança alimentar, ao mesmo tempo que toneladas de comida boa vão para o lixo. Quando utilizamos o alimento sem desperdícios, contribuímos para uma alimentação mais sustentável e consciente”, afirma.
Segundo a docente, o desperdício não acontece apenas quando os alimentos estragam dentro da geladeira. Muitas vezes, ocorre devido ao descarte de partes perfeitamente comestíveis por questões culturais ou falta de informação. “Quando passamos a usar o talo do brócolis no arroz ou a casca da abóbora no purê, estamos literalmente duplicando o rendimento das nossas compras e reduzindo drasticamente o que vai para a lixeira”, destaca.
Além de reduzir o desperdício, o aproveitamento integral pode aumentar a qualidade nutricional das refeições. De acordo com Karina Martins, muitas das partes descartadas concentram nutrientes importantes para o organismo. “Muitas vezes, elas possuem maior quantidade de determinado nutriente do que a polpa que estamos acostumados a consumir. A natureza concentra compostos protetores na superfície dos alimentos. Descartar essas partes é, literalmente, jogar nutrição de alta qualidade fora”, explica.
Entre os exemplos citados pela nutricionista estão a casca da maçã, rica em fibras e quercetina, um poderoso antioxidante; os talos de couve e agrião, fontes importantes de cálcio e ferro; e as cascas de melão e melancia, que contêm citrulina, aminoácido associado à melhora da circulação sanguínea, e pode ser usada para doces ou refogados.
A lista de alimentos que podem ser aproveitados integralmente é extensa. Cenoura e mandioquinha, por exemplo, podem ser consumidas com casca após adequada higienização. Já a abóbora permite o aproveitamento da casca e das sementes, enquanto brócolis e couve-flor oferecem talos e folhas que podem enriquecer diversas preparações.
Frutas como banana e abacaxi também são versáteis. Suas cascas podem ser utilizadas em bolos, doces, chás e outras receitas nutritivas.
Apesar dos benefícios, a professora ressalta que a segurança alimentar deve ser prioridade. Como as partes externas dos alimentos estarão presentes nas preparações, a higienização precisa ser realizada de forma correta.
O procedimento recomendado inclui a lavagem em água corrente para remoção das sujidades, seguida de imersão por 10 a 15 minutos em solução clorada própria para alimentos. Depois, os alimentos devem ser enxaguados e armazenados adequadamente.
Karina também alerta que partes deterioradas, mofadas ou excessivamente murchas não devem ser consumidas. Um exemplo é a batata que apresenta manchas esverdeadas ou brotos, situação que indica a presença de solanina, substância tóxica ao organismo.
Para quem deseja começar a adotar o aproveitamento integral em casa, a recomendação é iniciar com receitas simples e acessíveis. “Deixe o preconceito de lado e use a criatividade. Comece testando um bolo com casca de banana ou uma farofa preparada com talos de vegetais. Quando você perceber a economia no bolso e o sabor novo no prato, o aproveitamento integral deixa de ser uma obrigação ecológica e social e passa a ser um estilo de vida delicioso”, incentiva.
Para terminar, a nutricionista Karina Martins deixa uma receita muito saudável e nutritiva para que as famílias comecem a introduzir o reaproveitamento integral dos alimentos em sua rotina alimentar.
A receita pode ser preparada com talos de acelga, couve, agrião, brócolis, couve-flor, folhas de cenoura, beterraba, nabo, rabanete ou cascas de chuchu.
A nutricionista recomenda que os talos de couve, couve-flor e brócolis sejam previamente fervidos antes do preparo. A água utilizada no cozimento pode ser reaproveitada no preparo de arroz, sopas e caldos, ampliando ainda mais o aproveitamento dos nutrientes.
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